Relato de Sessão Individual: Reforma de Apartamento

Por Camila Scramim Rigo

No final de 2011, tive a oportunidade de contribuir para um processo de tomada de decisão individual, de uma cliente que iria reformar um apartamento.

O imóvel havia sido comprado por essa mulher, de pouco mais de trinta anos, de um irmão mais velho – que morou ali com sua família durante muito tempo e tinha um perfil muito diferente. Fazer a reforma era importante para que o apartamento se tornasse “seu”.

Mas seu desejo era incompatível com seu orçamento. Em meio a tantas dúvidas sobre o que fazer e do que abrir mão, a obra não saía da intenção. Mesmo a decisão de contratar um arquiteto não era fácil (pagar seus honorários significavam uma restrição extra no orçamento e o tamanho da reforma não justificava o investimento).

Ela teria que encontrar as respostas dentro de si mesma.

Nesse contexto, surgiu a necessidade de contar com alguém que pudesse ajudá-la a organizar e ponderar idéias, desejos e limitações (financeiras, estruturais, etc) para fazer a melhor escolha possível. Daí a decisão de me convidar para ajudá-la.

Meu encontro com essa pessoa durou cerca de 1 hora e meia, no próprio apartamento. Ali, ela me apresentou todas possibilidades que havia imaginado, prós e contras. Disse que pensava até em não fazer a reforma, tamanha a dificuldade de definir o que queria de fato. Percebi que ela parecia ficar chateada com quaiquer das alternativas, ao não encontrar, em cada uma delas, as vantagens que identificava nas demais.

Voltei para o escritório com minha Colheita em mãos – anotações sobre tudo o que realmente importava para esta decisão e para esta pessoa – com a certeza de que, muito mais do que organizar as informações contraditórias, minha missão era dar a esta cliente a oportunidade de se alegrar com uma importante conquista de sua vida.

Comecei classificando as dúvidas e considerações em grandes grupos/etapas. Assim, a decisão sobre “1) derrubar a parede que separava a cozinha da sala ou 2)  abrir apenas uma janela de comunicação” perderia seu sentido caso ela optasse por não fazer a reforma. Isso significava que a decisão de fazer ou não a reforma teria que vir antes. Feita essa sequenciação, o processo de decisão já não parecia mais tão caótico (uma escolha de cada vez e tudo se resolveria!).

Passei então a pensar no cartaz de Facilitação Gráfica que seria entregue. Optei por um caminho cheio de bifurcações como metáfora visual. Cada bifurcação era um tema, cada ramo uma alternativa. Junto a cada alternativa foi incluída uma lista de vantagens – opção consciente pela visão apreciativa: tudo nesse caminho era ótimo! Só seria preciso decidir que alternativa era mais positiva entre as positivas – o melhor tipo de dilema que se pode ter!

Ainda havia um desafio: como expressar visualmente, naquele caminho, decisões independentes como “decisão sobre a cozinha” e “decisão sobre os quartos” (as duas alternativas sobre a cozinha precisariam levar ao mesmo local para iniciar a decisão sobre os quartos). Além disso, o trajeto não poderia parecer louco, longo, chato ou complicado.

O lago com pedras, substituindo as bifurcações, foi a saída para este problema: remetia a algo divertido a cada passo, sem causar qualquer incômodo pelo fato de escolhas diferentes levarem a uma mesma pedra. Aos poucos e com a ajuda do desenho, todas as opções e argumentos foram sendo inseridos no mapa.

A intenção de uma colheita nunca é sugerir, questionar ou direcionar uma opção, e sim, consolidar idéias dispersas num todo organizado para que os próprios interessados façam suas escolhas. Quis deixar este princípio bem claro. Foi assim que surgiram as instruções, as flechas para colorir e os convites para a própria cliente completar a expressão da personagem que a representava, de acordo com os sentimentos que o caminhar em cada trilha havia mobilizado.

Sim, a decisão era dela. E sim, no painel quase nada havia que não tivesse sido dito por ela. E ainda assim, ter contado com ele fez toda a diferença, segundo suas próprias palavras:

“Ter recebido o painel me fez ver que não eram as pequenas escolhas que eu teria que fazer para executar a refoma que realmente importavam. Me fez perceber que posso decidir sem tanto medo (mesmo que de uma próxima vez eu escolha diferente) porque  será muito bom, de qualquer forma. Me mostrou, com beleza e delicadeza, o quanto eu estava me atrapalhando com meus pensamentos.”

Esse relato demontra algumas características da Colheita e da Facilitação Gráfica que eu valorizo muito e são muito difíceis de explicar (e até de acreditar):

  • a Colheita proporciona a oportunidade de olharmos para nossos próprios pensamentos como observadores externos, enriquecendo nosso diálogo interno;
  • a Facilitação Gráfica tem o poder de provocar e acessar emoções importantes, sem alardes e pieguices, com baixo risco de estranhamento, em benefício do processo.

 

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