Relato de Projeto: Articulação da Comunidade

Por Camila Scramim Rigo

Em meados de 2011, fui convidada para um projeto idealizado e liderado por uma grande indústria de cosméticos, que tinha como objetivo reunir e engajar diversos atores / organizações atuantes na cidade em que se localiza sua sede, para um diálogo multissetorial sobre possíveis ações de inclusão da população local no mundo do trabalho.

Esta preocupação tinha origem no compromisso da empresa em gerar empregos para a população local, porém se deparar com a não existência, na região, de profissionais suficientemente qualificados para assumir os cargos.

Sendo este um problema complexo (em todos os sentidos definidos por Adam Kahane: dinamicamente, por ter causa e efeito separados no tempo e no espaço; generativamente, por seus desdobramentos adquirirem formas desconhecidas e imprevisíveis; e socialmente, pelo fato de pessoas diferentes terem visões diferentes sobre qual é de fato o problema) não poderia ser solucionado de forma linear, apenas por uma organização. Teria que contar com uma articulação de esforços, inteligência e participação coletivas.

O formato proposto para propiciar a conexão e a troca de idéias entre todas essas pessoas foi um dia de encontro, em período integral, na sede da Secretaria de Educação do município. Utilizou-se diversas metodologias participativas como Círculo (Peer-Spirit), Café com Prosa (World Café) e Espaço Aberto (Open Space). Participaram do encontro representantes de empresas de vários portes, prestadores de serviços ligados à área de recursos humanos, professores e representantes da Secretaria de Educação, representantes de ONGs ligadas a formação profissional e a atividades extracurriculares, profissionais ligados à justiça, além de alguns jovens que enfrentam no dia a dia o desafio de conseguir seu primeiro emprego.

A função da Colheita neste projeto era, na primeira metade do encontro, capturar e consolidar considerações e pontos de vista que pudessem fornecer um panorama mais completo dos fatores que prejudicam a inclusão das pessoas no mundo do trabalho, naquele contexto específico. Este conjunto de conhecimentos alimentaria as discussões da segunda metade do encontro, em que os participantes conversariam sobre possibilidades de ações concretas no sentido de sanar ou minimizar o problema. Elas  também seriam colhidas para referência futura (para o momento de desenvolvê-las e levar ideias para a prática).

A seguir, encontra-se uma foto do painel produzido na primeira metade do encontro: um grande mapa mental, visível a todos, que consolidou as ideias produzidas pelos grupos rotativos do World Café (6 mesas de até 5 pessoas).

A proposta da facilitadora do processo para este bloco foi: “Conte uma história que ilustre o que influencia a inclusão de pessoas no mundo do trabalho. Que relação essa história tem com nosso contexto?“. À medida em que as histórias iam sendo contadas, os próprios grupos iam escrevendo, em filipetas, as idéias-chave que poderiam trazer luz para o questões relacionadas à inclusão no mundo do trabalho. Essas filipetas iam sendo trazidas para a Facilitadora Gráfica e iam concomitantemente sendo categorizadas e transcritas para o painel.

Na sequência, foi aberto um espaço para comentários em plenária e as principais ideias adicionais também foram sendo trazidas para o painel em tempo real.

Após terem um tempo, dentro da programação, reservado para examinarem o conteúdo do painel (momento em que todos puderam ter contato com a produção das demais mesas de conversa e também revisitar a parte que já conheciam, validando a Colheita e aprofundando a compreensão sobre o problema), os participantes foram convidados a propor temas para conversas que tivessem como pano de fundo ações práticas que pudessem ser realizadas por aquele grupo e sua rede de influência.

Cada grupo – formado livremente a partir do interesse pelos temas – documentou o resultado das discussões num formulário contendo descrição da ação, importância de apoiá-la, possíveis obstáculos e alternativas. Essas colheitas dos grupos foram exibidas ao final do encontro para que contribuições de outras pessoas fossem agregadas (o que por meio de post its).

Ao final do encontro, todo o material produzido pelos grupos com as contribuições dos demais participantes foi recolhido, lido, relacionado e transformado num painel final, uma Meta Colheita (Colheita feita a posteriori, a partir dos registros feitos em tempo real: a Colheita da Colheita) das ações propostas pelos participantes durante o encontro.

Confira abaixo o resultado deste trabalho, antes e depois:

Ao final do projeto, o cliente deu o seguinte retorno sobre a experiência com a Colheita e a Facilitação Gráfica, nesse contexto:

“É impressionante como se torna simples chamar os participantes para fazer a retomada dos conteúdos discutidos, quando eles se apresentam assim, dessa forma lúdica. O registro daquilo que era essencial foi excelente: sinto que nada se perdeu. Tendo os painéis em mãos, a gente se transporta para o dia do evento e tudo volta a ficar vivo na memória.”

Deste relato é possível perceber:

  • o quanto a Colheita pode ajudar a dar amarração para o processo no momento do encontro, fazendo com que os conteúdos levantados num bloco de conversas alimentem o bloco seguinte para que seja dado um passo além.
  • a importância da Colheita como memória, o que aumenta a força do evento para os propósitos do processo de mais longo prazo no qual ele se insere.